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Pelas veias de minhas mãos

“Tenho medo é desses outros
que querem abrir minhas veias.â€
c.f.a.



“Esse frio que você tem por dentro me deixa ler suas veias ao invés das linhas de suas mãosâ€. O branco da minha pele fez com que ela me lesse por dentro. Ao invés de me superficializar, ela me pôs pra fora, ela me escreveu pelas veias de minhas mãos, me disse o destino que eu queria e o que iria acontecer, me disse também que eu não a queria e que iria embora.
Por mais que eu implorasse e dissesse que não, ela sabia mais que eu a verdade: era insuportável aceitar alguém que me soubesse eu mais que eu mesmo. Era insuportável a cor castanho-amarelado de seus olhos me dizendo todas as palavras que nunca imaginei dizer, mas que sempre estiveram dentro de mim. Ela trouxe de volta todas as minhas dores me contando por nas unhas todos os motivos.

Saber o que fazia por meus calos na mão direita não era difícil, escrever me causava calos tão duros quanto lidar com pedras e madeiras, mas ela me disse o que eu escrevia e que também preferia o preto ao azul, me destruiu me fazendo acreditar em todas essas fés que se rezam por aí.

Como desconfiar de mim? Ela era mais eu do que qualquer papel espalhado pelo chão do meu quarto. Chorava, dizendo que minha dor a comovia, e eu não derramei uma lágrima, não senti nem sequer um arrepio destes que ela dizia me causar frio.

Que frio era esse que a fazia ler minhas veias? Todo arrepio que sempre senti, concentrava-se apenas nas pontas dos meus dedos, como todas as outras sensações, a palma de minhas mãos sempre morna, sempre indiferente, nem seca nem macia, apenas a palma da mão de uma pessoa. Mas ela via frio, ela sentia as veias pulsarem minha vida morna por esse frio que nunca senti.

Não pude deixar de acreditar, nem pude me forçar a isso. Era como se não se pudesse discutir, a verdade pairava sobre mim, uma verdade que eu não reconhecia, nunca havia sentido tão grande susto, ou melhor, nunca havia me sentido tão pálido de não sentir nada.

Tão distante que parecia cada vez mais próxima. Ela escurecia a cada passo para trás. Eu parado, não a queria perto, mas também não a queria longe. Meu destino era ela, aquela pessoa sabia todos meus passos, meus pesos, tudo o que me fazia parar diante do nada, ela como a minha face diante de um espelho num quarto escuro. Não havia o que enxergar, mas ela enxergava e via com seus olhos castanho-amarelados, com seus dedos por sobre minhas mãos, ela sentia meu frio, ela queria remontar minhas dores.

Foi se afastando mais e repetindo: “Esse frio que você tem por dentro me deixa ler suas veias, esse frio que você tem por dentro me deixa ler suas veiasâ€. Sem gritar, sem uivar de dor, morna como a palma de minha mão ela repetia, “esse frio que você tem por dentro me deixa ler suas veiasâ€, saindo de costas, me olhando e me sentindo, talvez pela última vez.


Esse frio que você tem por dentro me deixa ler suas veias. Assim ela disse. E assim ela foi embora.


Escrito por Estela* às 17h00
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- Exercício de Teoria Literária IV - Reescrever O Passeio Repentino, Kafka.


    O Passeio Explícito

   Quando a noite parece dona da casa, quando a decisão definitiva é cubrir-se de cinzas e de sono após o jantar, quando o conforto habitual da mesa iluminada remete àquele jogo que faz para ter sono, quando lá fora o tempo afasta o amor, quando a neblina faz tudo ter cheiro de desistência, quando a natureza de se estar em casa é insuportavelmente inerte, quando as escadas comem as luzes com desejo tal que faria qualquer pessoa desitir de destrancar a porta, e quando apesar desse todo, num despertar repentino, despe-se, destranca-se a porta e as sombras se despencam pelo corpo a dentro, um adeus é ouvido ao longe, pessoas perplexas que irão ficar esperando não respondem, não se pensa em quanto ou tanto se foi necessária a longa ou breve despedida, os passos temem não serem largos o bastante, não se sabe de quando em quando a respiração completa os batimentos cardíacos, não se ouve nenhum barulho a não ser os gritos de desejo que sempre povoam sua cabeça quando a liberdade vem, e tudo o confirma de seu poder de tocar o infinito, de tocar o distante e a força de saber a dúvida o toma, tudo são desejos violados, vontades prestes a serem realizadas, a força faz o vento mudar de direção e se vai às pressas pelas longas ruas - então, nesta noite, esquece-se de todos os dedos, anéis e cobertores, esquece-se de todos os laços e seus nós indesatáveis, passos adormecendo o essencial enquanto, firme, de alto a baixo, os toques de linhas tortas se fazem contornados em sua panturrilha já contraída de pressa, ascende-se à sua verdadeira estatura.

   Tudo fica mais explícito quando, no meio de uma noite insípida e fria, se procura um amigo para ver como se vai.



Escrito por Estela* às 11h46
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delicate

Só escrevo "alheio" quando estou triste...

O meu hoje me faz muito feliz e isso me impede de transformar dor em palavras. Estou em constante descoberta e talvez seus resultados sejam só silêncios longos e acompanhados de sorrisos.
Tenho pesos sobre meus papéis e ninguém vai entender o porquê deles estarem ali, hoje não venta. Não venta mais, mas a sensação de vento forte me faz te agarrar entre meus dedos, meu amor.
Tenho distâncias me dizendo quem é você e aproximações desfazendo quem eu era. Cada minuto me faz tremer quando as máscaras caem. Talvez coisas sem sentido digam mais nesse momento.
Tenho cheiros e sabores na minha frente e não sei mais o que fazer com eles, é como se meus órgãos de sentido só funcionassem pra dizer quem é você, meus olhos só quererm ver o caminho pra casa.
Tenho fotografias tiradas com meus olhos...
Tenho você aqui, mesmo sem você aqui...
Tenho meu corpo arrepiado, tenho sentidos próprios pro que é me sentir assim...

E, acima de tudo, tenho saudade, muita saudade...





:/

Escrito por Estela* às 20h58
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"Duas vezes apertou minha mão,
eu preciso de você, disse. Mas logo
em seguida já não precisava mais,
e esse medo virava indiferença, quase
desprezo, com um certo traço torpe
engrossando o lábio."

Lygia Fagundes Telles




Desejos IV - Desperdício e hipocrisia

Se me locomovo por aí é com minhas pernas e meu objetivo é o dedo que aponta e não a direção, sou o olho e não o que olha. Prefiro ser meu centro do que teu local de chegada. E esse teu não é de alguém específico é teu mesmo. Quero me vestir dos olhares que me devoram e andar desfilando as personalidades penduradas em mim, inclusive a tua, aquela que você deixou cair por aí quando me viu passar, gritando os meus vários nomes. Se me entendem? Não sei se querem, ou se isso faz alguma diferença, o que me importa é a vigília diária que fazem de mim, não o que pensam. Bem, tudo menos hipocrisia, disso você entende, entende tanto que mente pra mim toda vez que ri dos meus comentários chulos, não é mesmo? Pois bem... Sou mesmo isso tudo aí que te decepciona, meu bem, meu benzinho, saiba que eu agrado o outro lado, o lado que nunca te interessou, mas que me interessa porque lá sou musa e não esposa.
Não quero andar no caminho dos justos, de justiça já ouvir muitos falarem por aí. Não, não sou justa. Tenho minhas preferências e sei muito bem ferir quando quero e sei curar com aqueles emplastros de que nada adiantam. Chego, passo, vou embora, deixo meu rastro; há os que correm atrás de minha sombra, há os que pegam a areia do chão porque sabem que não vou voltar, sabem que eu vou mesmo. Esses que me tomam entre suas mãos, que tomam a areia que pisei como seu remédio, são os que mais admiro, claro, sei ser recíproca o suficiente pra amar quem me ama. Os que correm atrás só se cansam cada vez mais e tem sede do meu suor, mas minha sombra não sua e nem pode ser tomada entre suas mãos.
Eu? É, sou eu ali, bonitinha rindo pra você, coloquei meu rosto gravado na parede pra você não sentir saudade, ele até se move, olha só, que gracinha. E tem sempre um esperando, sempre tem... Por mais que seja aquele que menos se espera, pessoas como eu nunca estão sozinhas, a não ser quando realmente querem. Se o meu sorriso é falso? Não, não mesmo, já disse que não sou hipócrita. Sou eu mesma sorrindo e se alguém se expõe sou eu mesma, não se preocupe se vou me ferir, ou se vão me agarrar, e disso que eu gosto mesmo, haha, é disso que todos gostam, gostam de serem citados e eu não vou ser mais um daqueles que vai dizer: "não, quero ser somente eu no meio daqueles que me amam", eu quero é ser meu centro no centro de todos, haha... Eu vou mesmo me perder por aí no meio dessa droga que eu mesma criei e ela me entorpece mais do que qualquer merda dessas que já inventaram. Eu? Não, não, não vou te entregar meus pontos, quando o jogo acabar quem vai entregar alguma coisa aqui é você. Quem é você? Isso importa? E se você for você mesmo? haha... Tenho vontade de sorrir mesmo, rir, bem mais grosso do que um mero mover de lábios, mais perigoso, cuidado, o meu riso pode acordar a vizinhança, não é? Shhh... Quero silêncio pra só o meu riso ser ouvido!!!!! haha... Eu faço o que eu mando, só sou submissa a mim mesma, sei, sei... você é submisso a mim, não é? Poxa, azar o seu e sorte a minha, mais um dos que vai me esperar no fim da noite vazia, da tua noite vazia. É, também assumo que só preencho noites vazias, mas e daí? A minha noite já está preenchida, só estou perdendo mais um pouco do meu tempo com você. Sorte a sua, dessa vez, imagine, o objeto do olhar de 70% das pessoas que você conhece está preenchendo sua noite e seu dia também, se deixar. Você vai me expulsar? Não, eu vou antes de você pensar em querer que eu saia. Do que eu estou falando? Nem eu mesma sei... Eu tenho a mim e me desejo e isso pode ser apenas mais um dos meus delírios, mas não é... Seria muita hipocrisia, no fim de tudo dizer que isso é mentira, haha... Não me importa a tua opinião aqui, nesse fim que eu estou preparando, só me importa se teus olhos acompanharam minhas letras até aqui. Acompanharam? Ah, você é mais um dos que apanham minha areia e tentam me guardar, me montar com os grãos no chão do quarto pra tentar me possuir. Querido, quem possui aqui sou eu, se esqueceu disso?

Ah, e se eu passar e te arrastar por aí, me desculpe, não foi minha intenção...

Escrito por Estela* às 20h07
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CARTA A UM AMIGO I

 

Rio de Janeiro,23 de dezembro de 2005.

 Sabe Walter,durante muito tempo tentei viver da forma que deveria ser.Acordava cedo,ia pro trabalho,voltava pra casa e dormia.Os sábados eram dedicados ao lazer e à lavagem do carro.Aos domingos visitava mamãe e, as vezes,também alguns parentes distantes.Por muito tempo minha vida foi assim.Nem um barzinho às sextas!Vivia da forma convenciona.Eu aceitava as pessoas,aceitava a vida e tentava sobreviver.Ela me esmagava aos poucos e eu nem percebia.Mas chega uma hora que cansa.Cansa da falta de rotina,da falta de perpectiva,da ignorância das pessoas...Eu estava acostumado a passar por cima dos problemas,das imperfeiçõesdo dia-a-dia.Só que tudo isso explode algum dia.
 Lembro-me bem desse dia.Eu estava no ônibus vindo do trabalho,quando entrou pela porta da frente uma mulher carregando um bebê.Seu aspecto exdrúxulo e seu odor fétido anunciavam sua condição de pedinte.A mulher tirou do bolso alguns papéizinhos e começou a distribuir para os passageiros.Algumas pessoas recusavam,outras estavam dormindo.Foi quando ela chegou até mim.Recusei o papel educadamente.Em vista disso,ela se aproximou mais de mim a fim de entregá-lo ao passageiro do meu lado.Não pude explicar a súbita raiva que senti quando a pedinte encostou no meu braço e se debruçou em mim.Fechei os olhos de tanto ódio!Desde esse dia me pergunto como foi possível um ato tão pequeno me tirar do sério assim.E aquela mulher,uma pobre coitada,o que teria de tão repugnante que fez tocar minha alma?A verdade,caro amigo,é que descobri uma inédita aversão aos seres menos desfavorecidos.Foi como se,minha raiva,mantida por tanto tempo em oculto,se aflorasse e crescesse de uma forma que não cabesse mais em mim.Desse dia em diante,sinto que só tenho cultivado desprezo pelos outros.E,por pior que isso seja,não tenho qualquer tipo de remorso. 
 Durante anos,as pessoas decentes trabalham e vivem de maneira certa,porém no final,elas são as primeiras a sofrerem as consequências da estupidez  e vagabundagem dos outros.Sou uma dessas vítimas.Aquela mendiga foi o estopim,um afronta a minha dignidade de cidadão.Bem,depois disso, nenhum outro episódio me fez perder tanto a cabeça como esse.Mas esse...meu caro Walter,juro que se tivesse uma arma naquele momento irria ferí-la sem piedade ou até mesmo matá-la.Decerto que a culpa e o remorso poderiam me perseguir durante toda a vida.Mas isso faz parte,depois de anos vivendo nesse mundo,você se sente pronto (e no direito) a dar o troco,em qualquer momento.
                                             
                                                     Um grande abraço,
                                                                            seu amigo.



Escrito por Liana Carreira às 16h38
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“Onde está
a poesia? Indaga-se
por toda parte. E a poesia
vai à esquina comprar jornal.”

Ferreira Gullar


A poesia dorme e acorda na sua inutilidade. Transita entre os passantes e se instala na multidão. E observa! Sem função de nada, por nada. Simplesmente está, estática, muda, obsoleta. É caminho de lembrança e também de esquecimento.Não sabe se fica ou vai embora, embora isso não importa: ela transcende. A massa que se esbarra nas ruas, passa ávida e enlouquecida, nem se vêem ao menos.De todas as formas, elas procuram a poesia enquanto ela passa despercebida.
 O progresso tecnológico está aí, a modernidade é nítida e não queiram confundi-la com discursos carregados de vazio. Cabe à poesia exprimir o ralo bom senso das cidades modernas. E onde será que ele se escondeu? Em algum lugar do passado( esse passado nem tão distante)? Sendo assim, toda forma de resgatar a aura individual perdida é uma alegoria.Ou seria poesia? O individualismo foi suprimido e no lugar dele foi colocado o desenvolvimento. Mas o que seria poesia? E diante disso, ela ri e se esbarra.Vai caminhando, procurando lugar, mas não adianta : é inútil!
 Toda inutilidade brota de alguma forma de preencher um vazio, ou pelo menos deveria ser assim. Por isso, toda arte é inútil. Aquilo que passa imperceptível por perceber demais é o visitador da ausência das coisas. Assim seria o poeta: o andarilho, o pesquisador e, ao mesmo tempo, o solitário.O que procura preencher um espaço, mesmo que para isso, tenha que se lançar ao anonimato.
 O anonimato do poeta é sua eternidade e inspiração. A obra transcende o autor. É bela, suja, subversiva, transformadora, revolucionária. E acima de tudo ela É. Penso que toda a inutilidade da poesia está aí, é aquilo que jogamos no lixo,que não serve pra utilizar,que não é mão de obra, ou bem de consumo, que não pode ser tabelado, que não existe enlatado. A poesia é pensamento e não está à venda!
 Por vezes, ela se apresenta como o visitador do EU alternativo,  substancial. É o que visita o OUTRO, que abre seu mundo à introspecção. Vê o outro daquela rua repleta de cotidiano, vê o OUTRO da felicidade das massas, olha pra massa e vê outra coisa ali. Ela é o que diferencia a mesmice do fantástico, do sonho.
 Não seria o óbvio do SER POETA poetizar a qualquer minuto? Pois parece também óbvil que poetizar é brincar, jogar palavras ao vento, profetizá-las no ventilador . A poesia é o que extrapola, foge, não se contenta só com o texto. Precisa de espaço, de campo.A poesia é o que goza.
                                                                                     

" Poesia – deter a vida com palavras
                          Não – libertá-la "



Escrito por Liana Carreira às 16h10
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"Era perfectamente natural que te acordaras de él a la
hora de las nostalgias, cuando uno se deja corromper
por esas ausencias que llamamos recuerdos y que hay que
remendar con palabtas y con imágenes tanto hueco
insaciable."

Julio Cortázar

Desejos III – Folhas de Calendário

Ela chegou assim, devagar, e foi se instalando aos poucos por todos os cantos do meu corpo. Depois disso não senti mais nada, ela dominou os meus sentidos e me fez gozar de um tempo que não existiu. Até hoje tento retirar a poeira brilhante que ainda cobre o meu passado, tento secar o perfume que se espalhou pelo quarto.
Cinzas por todos os lugares, ela queimou tudo em volta. Apenas sobraram marcas de coisas que um dia povoaram minhas lembranças.
Ela, com suas pernas lindas, me amarrou no seu corpo e foi embora, me arrastando por ai, sem as pessoas verem, só eu vendo tudo, desejando descer ao inferno com ela, desejando tudo, agarrado em suas pernas, gozando ao sentir o cheiro próximo a meu corpo. Eu em casa esperando ela não chegar, torcendo o corpo em convulsões toda vez que o elevador dispara, pode ser ela voltando e me trazendo amarrado na sua pele, em seus pêlos...
Ela, ficou cravada no meu calendário, aquele que ela mesma pendurou nas costas da porta, aquele com um círculo vermelho no dia 16 de novembro, calendário atrasado, anos passados escritos em números no papel, aquela marca, chamando a atenção do meu sono no meio da noite, como se brilhasse no escuro, assim como a sua marca no canto esquerdo da cama.
Ah, e aquele samba que faz trincar meus dentes! Ela dançando, segurando a saia, de olhos fechados, eu, no desejo, amando um filme 36 poses que fiz dela, no dia em que disse que me amava e que isso era um problema, disse que o amor faz queimar as histórias escritas em volta, e amor faria o mundo ser um só. "Não é bem assim, é só o nome não ser amor, é só a gente inventar um mundo nosso, feito de folhas arrancadas do calendário e vidros de purpurina vazios, vamos fazer uma casa com janelas abertas, onde eu vou te ver chegar, de olhos fechados, eu vou andar pela grama, rolar pelo chão, meus dias de trabalho não vão existir nas paredes de calendário, seremos pra sempre lembrança, seremos personagens... "
Ela me desejava em silêncio e eu a desejava em voz alta, lendo meus poemas, andando de um lado pro outro, enquanto ela desenhava como seria o rosto do nosso filho.
Eu a amava e hoje sei que as cores que tem meus olhos são as cores dela, minha vida, o centro do meu mundo, 21 de dezembro, chuva com sentido inverso, chovendo ao contrário, o sol do avesso, esperando ela voltar, pro dia não se repetir mais, pra que as coisas sejam menos impossíveis, pra que minha carne pare de apodrecer sem sentido.
Eu só sei pintar meus dias com as cores das unhas dela, tudo agora é branco e preto, o tumulto que faz voar meu lençol espalha o resto de poeira brilhante pela casa, "eu me espalho pelas paredes, as mãos em chamas e você sei-lá-por-onde, na rua, em outra cama, manchando outros lençóis e eu clamando por você ou por outro corpo que se misture a sua lembrança, um corpo morto, não quero ouvir outra voz a não ser a sua..."
Ela é o que movimenta os meus desejos...

Escrito por Estela* às 15h09
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"Tens que ter sonhos e desejos amorosos.
E estes talvez te assustem. Não os tema!
São o teu melhor patrimônio, crê-me!"

Herman Hesse




Desejos II - Cacos e escombros

    Hoje acordei com a gritaria que faziam meus sonhos. Dois corpos, afastados, se desejando através de gritos. Nenhum toque. Quase um desafio, eram dois corpos se desafiando com gritos que ecoavam pela sala vazia.
    Era a loucura. E, de repente, me vejo dentro dela. Sou um dos corpos que grita e o outro é o teu. Estátuas movendo a boca, berrando o mais alto possível, querendo jogar na parede os restos de amor que sentiam. Loucura e compaixão, eu e você querendo mudar tudo com ruídos infernais. Se fóssemos ouvidos, tentariam nos entender sem conseguir. Incompreensível, total falta de sensibilidade, eu e você como desejos e gritos.
    A gente sempre precisa de alguém pra amar, e eu e você não queríamos mais precisar, espalhávamos escombros pela sala vazia, enquanto os gritos ecoavam pelos cantos ainda sujos de poeira. Pedaços de cacos coloridos, meus olhos quebrados, soltos pelo chão. Restos de algum sentimento sendo jogado pela janela e os não-sentimentos surgindo, paixão e desejo, gritados. Eu e você chamávamos um ao outro de grito, um código indecifrável, um jeito único de ferir e satisfazer a vontade de sentir dor.
    Minhas mãos desenhavam seu corpo no chão, com os escombros que eu trouxe e você posava pra mim com os olhos em cacos e a boca em frestas. Enquanto desenhava, meus gritos formavam uma linguagem que te fazia tremer mais ainda e eu mandava você parar, "fica quieto ou eu destruo tudo o que você pode ser agora, um bando de cacos se encaixando pelo chão. Deita bonito, do jeito que meus gritos mandam." E você, com medo de deixar de ser, ouvia gritando mais alto, abafando ainda mais a sala e fazendo minha mão perder o controle. Quando iríamos parar? Não sei... Acordei e me vi presa aos gritos que persistiam em povoar minha cabeça.
    Fui atrás de você, queria entender, e te encontro com os olhos inchados de lágrimas que não caem e os cacos na palma da mão estendida. Você grita e eu respondo jogando os cacos no chão, agora é verdade, eu e você, como dois loucos gritando no meio do nada. Você gritava algo como: "Quando isso vai acabar?" e eu cantava girando a cabeça sem saber o que responder, e cada vez que você dá um passo, eu faço guerra com os olhos em cacos, insanos, eu indefesa, porque defesa é o que não existe em meio à guerra. Você dizendo coisas sem sentido e eu gritando cada vez mais alto o refrão da música: "Summertime, time..." A loucura crescendo a cada minuto e um calor insuportável toma a sala. Vejo seu corpo suar e sinto vontade de secar sua testa, num gesto instintivo de amor, estendo a mão e você se afasta me lembrando do que fazémos ali, me aponta os escombros e eu lembro do amor. Olho o reflexo dos meus olhos nos teus, em pedaços, um caleidoscópio infinito.
    Me afasto, mas agora é tarde... Explodo e me jogo pela janela em forma de cacos coloridos e, a última coisa de que me lembro ouvir você dizer foi

Escrito por Estela* às 11h26
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"A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro.
É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos
nas pontas das palavras. Minha linguagem treme de desejo."

- Roland Barthes


Desejos I - O óbvio doce

    Sinto um doce percorrendo os cantos das minhas unhas, algo como afundar os dedos na calda de chocolate e sentir grudar suas pontas. Se eu passasse daqui pra lá, faria esse doce escorrer pelos seus lábios, porque é muito óbvio que eu te deseje e é mais óbvio ainda que esse doce só exista porque lembrei de você me olhando. Tudo como uma série de desistências, pensamentos cortados pelos seus lábios que me fazem calar no meio da noite. Não mais utilizar meu corpo como casa de sentimentos, mas sim o contrário, deixar que o sentimento seja a conseqüência do arrepio que me sobe das coxas até os cabelos. Entender que é doce pelo resto de cores que combrem minhas unhas. Um louco desejo de sentir cheiro de calor, de sentir o abafado, aquela chuva de suor colorindo a cama, desenhando corpos, amassando provas no lençol.
    Quero pensar frases que não irei dizer e pintá-las com as unhas sujas de doce pelo seu corpo, ou talvez, fazer sangrar suas costas, marcar com dentes que só servem pra manchar de vermelho. E você trança seus olhos na minha pele e eu desejo toda expectativa do toque, sua língua oculta, prestes a surgir, só olhos, os seus abertos filtrando o doce revirar dos meus, querendo de qualquer jeito encontrar um ponto do meu corpo que ainda não foi trançado. Um corpo de mulher, um desenho se retorcendo, como se um papel sendo amassado, aquarela manchada por frestas de luz, um poste na rua, eu, você, doce, desenhos...
    É óbvio que são só algumas sensações e também é ridículo repetir que é só isso, que basta. Nada basta, a partir do momento em que meus olhos crepitam ao ouvir o ritmo dos seus passos, é só pensar que você se aproxima que o doce volta pros dedos e me corpo volta a ser carne sem pensamento. De todas as impurezas que tive, essa é a mais densa. Deixar que uma música de sapatos corroa o meu raciocínio-mulher-fêmea-séria. De alma presa, deixo meu corpo dançar pela sala, pelo quarto, pela cama, pelo seu corpo, alma presa, corpo, arrepio depois pensar, pensar o que quero mover e não o que quero dizer, intoxicar, abafar, me perder e me encontrar nas linhas trançadas dos teus olhos, fios pelo corpo prestes a se arrebentar, coisas que se dissolvem a luz do sol, corpo que faz convites por escrito com os dedos no braço da poltrona.
    E é mais óbvio ainda que eu te esqueça, e que só me prenda aos fios dos teus olhos. Meu dia é todo pensado, mesmo que esse pensamento seja amassado por entre lençóis e travesseiros, a noite infinita, eu, com os dedos doces e solitários, desenhando com sangue meus desejos pela parede, sujando de vermelho meus lábios.
    Sua presença é indiferente à minha alma... Desde que meus dedos não estejam doces, desde que não seja noite, desde que minha alma não esteja presa.

Escrito por Estela* às 17h21
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A culpa é do Adão

A poesia amanheceu manchada de sangue . O tempo foi favorável para os abutres . Choveu granizo em algumas cidades de São Paulo. Me pergunto onde foi parar o bom senso , se se escondeu em algum lugar do passado . Esse passado tão distante ... época em que o mundo era perfeito . DEUS nos deu tudo e porquê será que somos tão artificiais .
Sou um ser humano , casado , de respeito e não vejo utilidade na poesia . Mas o que é poesia ? Talvez o mundo fosse melhor no tempo de Adão . Se não fosse a Eva ...
" A mulher é o poço do pecado , do mau caminho , da falsidade , da hipocrisia e da perdição " já dizia a Bíblia . É  de se admirar que ela ainda encontre tempo para lavar a roupa . Mas o homem é um ser supremo , magnífico , só que pois tudo a perder . Por causa de Adão , hoje nós temos que acordar cedo , trabalhar , estudar e escrever poesia . Poesia ... mas quem é essa poesia que mancha meus dedos com jornal todos os dias ? Penso que se não fosse a maça , não existiria trânsito , esgoto , morte e me pergunto como alguém consegue comer sentindo o cheiro da Ilha do Governador . É de se esperar resposta ! E mais : quem precisa de formalismo , estruturalismo , poética quando temos ignorância , concurso público , carteira de trabalho , produção em série e pessoas que só trabalham terça-feira ?
 O progresso está aí , muito além disso , ele é muito maior . E não queiram confundi-lo com discursos , isso é coisa de gente mesquinha . Durante milênios , temos pago por um pecado que não é nosso e até quanto tempo mais ?
 Penso que só é feliz , quem não abre a janela . Ah , e também quem não tem que pagar FGTS , INSS , juros e correção monetária , plano de saúde , escola particular e ballet pra filha . E além do mais , há os poetas e essa tal poesia ! Mas o que leva uma pessoa a se auto intitular poeta ? Será que é o almoço de domingo , a mulher que reclama da roupa ou os estudos de fin de siècle ? Por que não deixam de confundir nossas cabeças com Iracemas , Luízas , Cecílias , Marinas ... e se a poesia fosse descartável ? Ela se suja de sangue todos os dias ? Existe poesia anti-social ? Uma vez poesia , sempre poesia . E como defini-la ? Vamos sujar nossas cabeças com a poeira de fora , elas precisam acordar pro outro lado . Vamos arrastar nossos corpos imundos até o calvário , mais uma vez por causa de um pecado que não é nosso .
 Enquanto a vida corre lá fora , cá estamos . Discutindo sobre o que é poesia , ao mesmo tempo em que o padeiro é encontrado morto por não ter pago sua dívida com traficantes . A moça da esquina tem medo e chora todos os dias . O padre da  igreja mandou ela rezar dez pai- nossos e vinte ave- marias e tem certeza que isso protegerá seu marido todos os dias , quando ele estiver em serviço .
A cada dia o mundo é espremido mais e mais . Somos o suco da laranja que sobra e por ironia do destino , vai ficando cada vez mais ralo . Depois da penitência diária , a quem vamos recorrer ? À poesia ? Mas o q ela fará por nós ? Pegará em armas e lutará contra os poderosos de plantão ? Pois bem sei que NÃO . Ela simplesmente amanhecerá mais uma vez suja de sangue , de sangue coagulado da madrugada . " Toda arte é inútil ! "  



Escrito por Liana Carreira às 17h02
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Preciso de algo que me desperte, que me acorde... Me sinto dormir, mas meus olhos já não fecham mais... Se ao menos eu tivesse talento, se ao menos eu fosse bonita, mas não... Sou apenas uma coisa solta nessa imensidão de pessoas... Sinto-me rodeada de sentimentos que não são meus, me sinto diferente do que deveria sentir.
"Preciso sentir meu corpo, preciso me sentir mais veloz. Já não sou mais tão mulher, passei a ser um espectro distante da escuridão. Nem em casa me sinto mais, sou apenas um espectro fora da escuridão. E essa coisa que me prende e me amordaça... Já não sei mais falar, só sei escrever e escrever e escrever... Que diabos eu penso da vida, que diabos eu penso de mim? Sou uma pobre mulher ou esse espectro que teimo em ser? Mesmo se eu não quisesse mais continuaria sendo o que sou."
Acorda, acorda! Levanta! Anda... Essa alma que não corresponde mais! Ah, a morte, que doce e difícil que ela é, difícil difícil... Tão distante, tão longíquo, tão... Presa, me sinto presa e não consigo despertar. O que me prende é essa ausência de dores, ausência de estrelas nesse céu branco, sem cor... Nada de céus azuis, apenas um céu branco pronto pra escurecer. E nada de chuva, nada... O que segue é a noite fria, não a tempestade... Não vem tempestade, não vem bonança... E eu continuo sendo um espectro... Vem noite fria, vem céu sem estrela, céu branco, nada de nuvens, eu presa em entre tudo.
É esta a canção, é este o som! Acabo de lembrar... Ela vai estar aqui, bem aqui... Em meus ouvidos, sentindo a dor... Essa música passou a sentir dor por mim... Que lágrima mais pura! Uma música e eu estou no céu branco sem nuvens, uma nota e cá estou eu, no céu negro sem estrelas, na noite fria, no céu branco...
Tenho mãos pesadas de tantas letras que não saem, tenho dedos ágeis, mas não consigo fazer com que eles se movimentem no ritmo da música que me faz viver. Continuo parada, continuo sentada no mesmo lugar. Talvez eu saia de casa amanhã, talvez eu vá andar por um lugar onde nunca passei. Uma pessoas nunca pode trilhar o mesmo caminho. Por que eu me forço a fazer isso? Se eu sei o que é impossível por que então tentar criá-lo? Serei eu mais uma impossibilidade sonhada por alguém?
"Sou um sonho infantil, sou eu quem voa na tua cabeça, sou eu quem está aí, falando coisas que te assustam e te fazem correr para debaixo dos cobertores. Te vejo agora, assim, pequeno, e eu lá, um sonho infantil, voando no teu lugar, te fazendo sorrir e chorar... É você ali, sentado no chão, a revolver a terra com um galho, uma varetinha que faz você pensar no fundo da terra, o que há debaixo das raízes? Um mundo diferente do seu, criança... E eu lá, um sonho infantil! Um desejo de criança, desenhos animados, café e lanche... Sorvetes! Sou uma fábrica de fantasias, sou um silêncio planejado, o silêncio que tua mãe fazia quando te punha pra dormir, sou o silêncio planejado, o silêncio infantil, o silêncio que você conhece muito bem... Sou a inocência dos diabos que tanto odeio, sou a sinceridade que você tinha quando era pequeno, sou a garota que fazia te coração pular na escola, sou a professora que dizia que teus poemas eram fantásticos. Porque eu sou fantástica e o mundo de fantasias sou eu!"
Sinto minhas costas pulsarem com essa dor... Ultimamente minhas dores tem sido físicas... Mas isso que escrevi agora é físico! Sei que quando escrevo o que me vem são lágrimas que não caem e sei também que me dói demais escrever, sei que é assim, mas não queria que fosse, queria que fosse fácil, mas não é!
Ah, como cansa, sou eterna fuga cansada de correr...
Hoje não chove, hoje não tem estrelas no céu, hoje não tem ele aqui... Cartas e mais cartas que nunca serão enviadas e eu enlouquecendo... Será que uma pessoas sabe quando enlouquece? Serei eu uma pseudo-louca nessa mundo caótico? Gosto dessa palavra: caótico... Chaos... Inglês, talvez minhas palavras fiquem mais bonitas em inglês... Mas eu nem sei inglês, sei minha língua pátria dolorida... Essas palavras cheias de ésses e érres, cheias de combinações coloridas e doloridas... Contidas! Eu me contenho em palavras... Sabe o que passo a ser quando escrevo? Um livro... Eu passo a ser um livro aberto a todas as interpretações possíveis... Eu sou interpretada por suas mãos que me desvendam, os segredos do meu mundo são todos escrito com seus dedos, e minha boca, minha língua pronuncia nosso amor no meio de um beijo, um carinho e um abraço são a nossa escrita, suas mãos em mim, eu que me digo em apenas olhares e você que me escreve com toques, não creio que eu possa ser tão complicada ao ponto de não conseguirem dizer quem sou. Você sabe quem sou, sabe tanto que me faz palavra com suas mãos... Meu corpo, minha escrita, seus cabelos... Meu rosto teme seus toques, não quero que meus olhos sejam desvendados por suas mãos que escrevem em mim o nosso amor, não quero, meus olhos que te encantaram um dia, olhos de bicho... Não quero. Gosto de ser um ponto de interrogação coberto de maravilhas! Não quero ser descoberta! Isso que sou depois de mim não interessa, isso que sou depois desse eu que tanto falo é falso e é a maior verdade que irá poder ser dita, não! Não poderei ser dita em palavras, serei dita em toques, eu em meu cerne maldito de carne interpretada! Não gosto de ser isso que sou, nem isso que serei, gosto de ser uma parte da sua vida, só isso...



Escrito por Estela* às 09h10
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Coisa que precisam ser ditas ou um texto sobre nada.

A paisagem cinza invade a minha casa . Seria necessário trinta mil janelas para contê-la .Da cadeira de balanço , vejo o mundo lá fora , através de um espelho . Espelhos fazem coisas extraordinárias na vida da gente. Lembro a primeira vez que vi um ; era um enorme e maciço . Sua vitalidade me dava medo! Ao mesmo tempo existia sobre ele uma capa de superfialidade . Pois bem digo , as coisas superficias não são meramente o acaso do acaso . O acaso é muito mais do que imaginamos , mas vale a pena simplificar a vida . Aquela outra pessoa que sou não muda meu jeito de ver as coisas . Não muda , mas diferencia .O espelho é na vida dessa pessoa como um raio de 360 graus . Dá voltas e para no mesmo lugar , o lugar comum de todos . Por mais incômodo que seja , a vida é assim mesmo...Queria viver de sonhos superficiais , coisas tolas , pensamentos irritadiços , daqueles que causam estranheza e arrependimento logo no primeiro contanto . Logo , logo as descobertas seriam muito mais interessantes . Faço- me completa quando visito pessoas importantes e causo repugnância . O que seria da maravilha se não fosse a repugnância ?  Elas andam de mãos dadas . Acho gozado a palavra paradoxo ,  como se existissem constatações .Quem as estabelece ? Quem julga paradoxal certa coisa é porque não se conhece realmente . O  nosso espírito é paradoxal . 
O vento chegou para mim ,  como um homem . Arrasou tudo que eu tinha , me pegou pelos cabelos e me jogou na rua . Atravessou o meu quarto e se firmou na minha cama . Fez dela sua moradia fixa . Mudou endereço , CEP , RG , CPF ...vestiu meu corpo e foi passear  . Há quem julgue que me viu perante ele . Para essas pessoas , eu só lamento e me encho de vergonha quando olho o primeiro cachorro na rua . Minha casa é um furacão que transforma as paredes em simples poeira .  Os móveis se deteriorizam como madeira ruim , as minhas roupas viram nuvens e carregam toda a  solidez escondida no canto das paredes e as guarda debaixo do tapete . As nuvens vão crescendo cada vez mais , tornando o tempo intenso e irritantemente cansado . " HÁ MAIS COISAS ENTRE O CÉU E A TERRA DO QUE SE PODE PROVAR "

E tudo  mais é simplesmesnte silêncio .



Escrito por Liana Carreira às 22h21
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 Eu tenho uma estrelinha que conversa comigo. Toda noite, antes de dormir, eu pergunto para ela o que fazer no dia seguinte. Ela apenas me diz pra levantar da cama e sair de casa. Aí me dá boa noite e vai se deitar também. A sua morada fica perto da lua, mas não tão perto, porque senão seu brilho a ofuscaria. A minha estrela brilha muito! Sua pele branquinha faz com que se sobressaia ainda mais. Seu brilho é tão intenso que espanta as outras estrelas. Na verdade, ela toda é muito intensa. Quando passa pelo céu, todos os outros astros se escondem. Por isso, às vezes ela se sente só. Ah, mas quando ela chora, eu me disfarço de nuvem e vou abraçá-la. Tem vezes que ela também se irrita e não quer conversar comigo. Nesse caso, tenho que usar outros artifícios: digo que ela nasceu pra mim! Então, ela abre um sorriso e fica feliz igual criança brincando de balanço.
Quando o sol está se levantando, ela se espanta porque tem que viajar pra muito longe. Então eu a capturo pra continuar dormindo junto de mim.

Mas ninguém pode saber, é o nosso segredo.
A minha estrelinha ri das minhas gargalhadas, chora pelas minhas lágrimas e se sente muito poderosa. O que ela não sabe é quase sempre quando está dormindo, sua luz permanece no céu, mas só eu enxergo. Nos momentos em que preciso, ela está comigo, mesmo longe. E fala, mesmo calada. Porque de tão intensa que é, nunca poderia se fazer ausente (pelo menos pra mim).



Escrito por Liana Carreira às 18h42
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*Minha homenagem um pouco atrasada pra Liana*

 

Meu Leão

Eu tenho uma casinha. Na porta tem uma estátua de leão que ruge de verdade. Ele não morde, não, de jeito nenhum. Esse meu leão chora que nem árvore de manhã, cristalino que só. Tem raios de sol misturados nos cabelos e duas pedrinhas castanhas em cima do focinho. Ele é de mentirinha e chega até a falar. A minha casinha é mais segura com ele. Eu e mais um rapaz, somos os únicos que colocamos a mão na boca do leão. E ele não faz nada. O meu peludo gosta de achar que a gente depende dele, mas no fundo no fundo, o que ele ama de verdade é ser cuidado.

Deita de barriga pra cima, meu leãozinho, todo dia é seu dia. Todo dia é dia de rugir.

 

Bahia - 14/08/05



Escrito por Estela* às 17h28
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   A face egoísta de cada dia

Pela manhã,espero a escuridão chegar de novo. Encho uma copo vazio de insetos e tomo. É mais fácil fechar os olhos. Queria que eles sempre estivessem fechados.
Os insetos digerem dentro do meu corpo, formando uma pasta preta que me toma por dentro. Fico extasiada,não existe sensação melhor.
                                                                                                      

                                                                                                       ^
                                                                                                       ^

Eu guardo jornais para guardar o passado. Empilho tudo e guardo num quarto até o teto. Ultimamente não tenho conseguido abrir a porta. Os jornais preenchem o quarto como o passado preenche a minha vida. Não há espaço para o presente.


                                                                                                       ^
                                                                                                       ^

Estou nos meus dias introspectivos, aqueles em que acho que tudo vai acabar. Minha vida é uma linha torta com caminhos escuros. Eles estão em constante confusão mental. Neles habita a minha essência. Quero atingir a luz ou pelo menos aquilo que se conhece como. Não quero ser escura para sempre; quero ser algo claro, límpido,
translúcido; quero tocar as pessoas com a minha luz. Antes de tudo,quero ser clara.                                                                                                                                        



Escrito por Liana Carreira às 19h30
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Estrelas temporariamente de férias

 

 



Escrito por Liana Carreira às 19h01
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      ''Tú vives siempre en tu actos
       Con la punta de tus dedos
        pulsas el mundo,le arrancas
       auroras,triunfos,colores,
       alegrías:es tu músicas
       La vida es lo que tú tocas.''
                             (Pedro Salinas)
                    
                          O oposto

        Desde cedo,tenho o dom de estragar as coisas,torná-las sem vida.Tudo o que toco,vira solidão.
Na euforia de querer possuir tudo ao mesmo tempo,acabo por acabar com tudo.Na euforia que tenho
de querer dar vida a tudo,tudo acaba virando morte.Sou eu e mais alguma ponta de desilusão.E sem
perceber assumo minha postura de destruidora.O oposto.Aquilo que se perdeu,entortou,tomou vida própia.
Aliás,vida não,morte.
       Eu sou aquela que não acredita no que sente.Talvez mais por insistência minha.Nos meus dedos pulsam o
desterro,a desesperança,o silêncio,o inimaginável.Da minha boca saem promessas frias,fatalidades,como
aquele beijo da mulher aranha.
       Eu devolvo às pessoas aquilo que me tiram(inconscientemente).Eu faço tudo parecer ilusão.
A vida pra mim é algo que se esconde.

       Eu sou o que estrago!

 



Escrito por Liana Carreira às 22h17
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Como fazer uma estrela

Junte cinco pontas de qualquer coisa que seja colorida (inclusive aquele olho de sabiá que você nem sabia mais que existia dentro de você).
Dobre bem (até que não se distingua mais sabiá de sabia).
Passe um pouco de cola em cada ponta (pra unir bem os dois cantos... o canto do sabia e do sabiá)
Deixe secar na luz do seco (seco faz luz de manhã, quando ainda não é inverno).
Pingue no meio de cada cor um pouquinho de som (até que o vermelho tenha som de grito e deixe de ser vermelho).

Jogue pro alto até que grude no céu...

E bom apetite (estrelas despertam fome de onça!)

Escrito por Estela* às 22h29
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Rio Branco, duas horas da tarde

Na multidão,
costuro pessoas.
Elas estão robóticas,
necessitando de atenção,
de alguém
que corte o vínculo delas com a melancolia.

Na multidão,
seus ritmos são frenéticos.
E estão em toda parte.
No apito do guarda,
no vento dos prédios,
nas conversas de meio de rua,
no canto dos mendigos,
no vendedor de bugigangas.
...

Tudo suspira loucura
Obsessão em costurar os movimentos,
fazer com que fiquem belos.
Ensaiar uma dança no meio da pista.
Encontrar poesia no caos.
No caos da multidão
há beleza.
Confesso que ela existe
E está em toda parte.

É só mudar a forma de encará-la
Um saco dançando perto das nuvens,
pessoas cantando a música ensurdecedora que a paisagem exala,
papéis voando ao encontro de seus pares,
garis bailando com suas vassouras,
guardas beijando seus apitos,
camelôs declamando a poesia do dia-a-dia,
e eu
costurando.
O tecido fragmentado
da realidade
Atorta colcha de retalhos
da cidade moderna
A fotografia perfeita
da desconstrução
Ávida,
louca,
berrante, mas, acima de tudo,
bela.



Escrito por Liana Carreira às 08h46
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O Vento

    A vida que me puxa é a mesma que me derruba. Estou derrubada agora? Não, não estou! Estou firme, de pé, estendida, olhos ao horizonte, cabelos ao vento...
    O vento é uma música tão agradável para quem sabe ouvi-lo... Eu ouço o vento, eu vejo o vento, eu sinto o vento... E o que é o sentir senão ver com o corpo todo! Eu vejo o vento com meu corpo. Ele vem assim de mansinho, bagunça meus cabelos, meus pensamentos e miha vida... Ah Vento! se um dia morrer quero que me leves contigo para que eu veja a chuva de cima e veja o sol mais de perto... Vento, promete que me leva até as estrelas? Elas são tão belas! Não quero me tornar uma delas, quero ser parte de você, Vento. Minha vida ao vento.
    Não ambiciono um dia saber voar... Esse não é o meu sonho. Se um dia eu for com o Vento, quero ser levada, não quero escolher para onde vou, quero voar como cinzas ao vento! Ah, não! Cinzas não! Eu que sou tão branca quero ser um daqueles pendões que chamam de dentes-de-leão! Tão leves e maleáveis! Quero acabar meu vôo nas mãos de uma criança...
    Ah, as crianças... O que me proporcionam elas sem nem saber que estou observando-as. Vejo cada movimento leve de seus passos inocentes.
Eu sou inocente, não é isso que me dizem? Se um dia eu deixar de ser inocente pegue-me pela mão e me leve a um jardim onde eu veja muitos pássaros e ouça o seu canto; pegue-me pelos braços e me leve a um lago para que eu veja o brilho do sol refletir em suas águas; pegue-me no colo e me leve a um lugar calmo onde eu possa ver todas as estrelas e contemplar seu brilho... Pegue meu rosto e mostre-me o imenso mar que habita seus olhos...

Escrito por Estela* às 16h27
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